Fábula lunar






Era tarde e os grilos cantavam, aquela quarto crescente escondia-se atrás das nuvens.

Porém antes de se retirar, (por detrás do morro) mostrou-se a mim, sem aviso prévio, nua. 

Desnudou-se lentamente, nuvem a nuvem.

A cidade dormia, restou só a mim o espetáculo, breve, intenso e brilhante.

Mestra na sensualidade, logo se vestiu de nuvem e desceu para dormir.

Paquerávamos, a lua e eu.







top isso,
top aquilo,

é utópico!




Capítulo dos sapatos

Autor: Maurício Barros



Parte I

Duas crianças conversavam à rua. Talvez com olhos de inocência poderíamos dizer ser apenas duas crianças a conversar.  Mas para qualquer transeunte que visse a cena, era evidente o fosso social que as separavam.
A primeira, sentada ao chão, engraxava os sapatos da segunda, que sentada à cadeira, e sob os olhares atentos da mãe, tinha seu sapato polido.
Aquele que o polia, desenvolvera um talento natural para polir sapatos, um artista, que ainda novo dominava por completo sua arte; mas que ironia, nem mesmo possuía sapatos...

Parte II

Sua arte era destinada a outros, como aquele menino com quem conversava.
A mãe, senhora imponente, olhava ansiosa o relógio, pedia que o engraxate se apressasse, estava atrasada.
Mas o prodígio mirim era eficiente, e não muito após ter-lhe falado, sinalizou à madame o término do trabalho, apontava os sapatos que reluziam à face rechonchuda da senhora; esta se deu por satisfeita e pagou o serviço.
Enquanto o garoto devolvia o troco, o segundo, sentado à cadeira, nada falava. Porém antes de descer estendeu sua mão para se despedir, só que esse estava de mãos sujas, a mãe logo puxou-o evitando o cumprimento.
Seguiram seu rumo guiados pelo atraso da senhora. O menino pensava no engraxate, talvez pudesse encontrá-lo em outra oportunidade para que juntos brincassem.

Parte III

Aquele que ficava para trás, de mãos sujas, nada pensava. Um senhor tomara o assento e assistia o pequeno artista desenrolando sua arte. O homem feliz tinha seu sapato polido.

Parte IV

Era um dia comum.