Autor: Maurício Barros
Parte I
Duas crianças conversavam à rua. Talvez com olhos de inocência
poderíamos dizer ser apenas duas crianças a conversar. Mas para qualquer transeunte que visse a
cena, era evidente o fosso social que as separavam.
A primeira, sentada ao chão, engraxava os sapatos da
segunda, que sentada à cadeira, e sob os olhares atentos da mãe, tinha seu
sapato polido.
Aquele que o polia, desenvolvera um talento natural para
polir sapatos, um artista, que ainda novo dominava por completo sua arte; mas
que ironia, nem mesmo possuía sapatos...
Parte II
Sua arte era destinada a outros, como aquele menino com quem
conversava.
A mãe, senhora imponente, olhava ansiosa o relógio, pedia
que o engraxate se apressasse, estava atrasada.
Mas o prodígio mirim era eficiente, e não muito após ter-lhe
falado, sinalizou à madame o término do trabalho, apontava os sapatos que
reluziam à face rechonchuda da senhora; esta se deu por satisfeita e pagou o
serviço.
Enquanto o garoto devolvia o troco, o segundo, sentado à
cadeira, nada falava. Porém antes de descer estendeu sua mão para se despedir,
só que esse estava de mãos sujas, a mãe logo puxou-o evitando o cumprimento.
Seguiram seu rumo guiados pelo atraso da senhora. O menino
pensava no engraxate, talvez pudesse encontrá-lo em outra oportunidade para
que juntos brincassem.
Parte III
Aquele que ficava para trás, de mãos sujas, nada pensava. Um
senhor tomara o assento e assistia o pequeno artista desenrolando sua arte. O homem feliz tinha seu sapato polido.
Parte IV
Era um dia comum.