MARGARIDA INDIGESTA

Autor: Caetano Soares





Ó Margarida indigesta
escultura de poeta
não se vá assim tão depressa,
escandalosamente encanto atracto-luminescente.

Quando passa
Margarida indigesta
deixa versos no chão.
Ver passar Margarida 
é adolescer de paixão.

É a quebra dos passos
é o vento das mãos
são os ombros suspensos
distantes do céu,
perto desses pobres poetas sem inspiração.

De forma que
peregrinávamos
de todos 
          cantos
          ventos
          mares
poetas desinspirados,
para ver Margarida passar.

Lutávamos, como pombos
catando migalhas de poesia.
Excessos de seus cabelos
sobras de seus olhos
restos do corpo de mel
de Margarida indigesta.

Vinham de muitos
vinham de poucos
vinham em desespero;
e nas matas selvagens
de Margarida indigesta,
delirávamos.

As correntes revoltas
indigestas de Margarida
enchiam de água nossos pulmões
e íamos ao fundo,
e de tão fundo
e de tão alto,
tocávamos as estrelas com a mão.

Mas Margarida
indigesta como é,
logo se ia...
Levando com ela a poesia.

E os pobres poetas
adictos de Margarida
ficavam para trás
com abstinências literárias
do entorno
da coxa
da saia
de seda
de Margarida indigesta.

Ó Margarida! Ah Margarida...
Não se vá assim tão depressa
escultura de poeta.





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AUTOR: CAETANO SOARES

Autor: Caetano Soares



Janela,
           janela
                    minha.

Que decerto haveria,
                                  para além de seu trinco?

Estaria ali
                fora
                       o mundo?

Pássaros?
Vida?
Morte?

Que escondes por detrás
quadrado buraco de minha parede?

Muito imagino, que lindo;
campos, sóis, troncos no jardim...
Mas não a abro.

Não       não
       não       abriria.
           

Que decepção seria abri-la
e ver o que há.

De minha cadeira
na minha paz fechada janela
posso tudo imaginar
que há
e que não há.

Imaginar é conceber.




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SEREIAS E PAPAGAIO

Autora: Fernanda Flores



Outono me acena
surdamente,
me abraça, me beija,
mas não me trás presentes.

Do alto da pedra
em Itacoatiara está o mar.
Miro ao mar e bebo o mar,
          de sabedoria o mar é fonte
          de sabedoria das sereias.

São cantos marinhos de sal.
São as mulheres-peixe.
Sou as mulheres-peixe.

Claras, vagamos no azul
crescemos nas águas,
um tanto amargas,
em ilusões do firmamento.

Ainda assim amamos,
amemos!
Amemos as anêmonas,
os corais, peixes abissais...
Amemos todo o mar e seus dilemas.
Amemos o vento,
ah!
Acima de tudo amemos o vento.
O vento canto da sereia,
soprava-a às margens
sem perceber
o oceano cruzando-se.

Sim, vislumbremos a terra
e humanas construções,
concreto, relógio e pressa nos bolsos.

Tenho sede.
                     Bebo.
                     Bebo do mar.
                     Bebo do mar a sabedoria.
                     Bebo do mar a sabedoria das sereias.





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CARAS E COROAS


Autor: Gerônimo Escobar



Falar da realidade
é distorcer a realidade.

Lembro
quando cruza uma flor em meus passos,
a umidade fétida do estrume.
Lembro,
os dois lados da moeda.

Peça metálica vã em meu bolso
esmolada,
alegrias a mãos de pés descalços.
Mão iguais,
moedas diferentes.

Duas moedas
em ideologia transfiguradas,
um truque de mágica!

Em barracões
famílias de fulanos de tal,
Severinos, Severinas...
A apoteose da miséria.

Pelas antenas de televisão,
hipnose coletiva.
O mudo distorcido
entra por um olho e sai pelo outro.
O Homem em estado de ser humano-coisa.

O Tempo é a medida da mudança.
O Tempo, é a soma dos desassossegos.





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