Hoje sou um livro por completo. Mas nem sempre foi assim, há algumas semanas ainda me escondia em minha vergonha. Saí fresco e orgulhoso da editora, me enviaram diretamente para cá, biblioteca imponente, satisfação de qualquer livro.
Os anos passaram, minhas páginas começaram a amarelar, mas nunca, simplesmente nunca haviam me lido. Ouvi milhares de histórias de meus vizinhos, que inveja que tinha, todos os contos a respeito de lugares e olhos que os leram. Alguns mais experientes tinham uma vida ativa, paravam na prateleira apenas para um ou dois dias de descanso.
Entretanto quanto mais ouvia essas narrativas, mais me escondia em meu canto, embaraçado de dizer que nunca havia sido lido. Mexiam-me apenas para tirar o pó que a falta de uso gerava, mas também tinha algo a dizer.
Então, quando já aceitado minha condição, ela apareceu. Seus pés adentraram o corredor, todos os livros ergueram o peito para impressionar, os de capa dura se orgulhavam de sua aparência. Eu como de costume, fiquei quieto, era doloroso ver meus colegas indo e vindo.
Ao tempo que estava de olhos fechados, lamentando minha sina, senti uma mão quente e leve. Despertei assustado, sem entender. Mas sim, havia sido escolhido. Incapaz de acreditar, em pouco não mais estava na biblioteca.
Enquanto me carregava pela cidade, assumo que estava nervoso, apesar de minha aparência de idade, com páginas amareladas, era essa minha primeira vez.
Entramos os dois em sua casa, me deixou à prateleira e sumiu pelo corredor. Mirei ao redor, coração batendo acelerado, tinha medo de fazer algo errado, de estragar tudo.
Naquela noite, me levou ao seu quarto já com roupas de dormir, fomos para a cama. Bruscamente me abriu, pude ver pela primeira vez seus belos olhos azuis. Confesso estar um tanto quanto acanhado enquanto lia minhas primeiras sentenças, depois me deixei levar.
Encarei-os frente a frente, e também ela, via-me em cada acento, virando minhas páginas compulsivamente. Que noite meus amigos!
No dia seguinte estava mais à vontade, entrei por completo em seu mistério, jamais esquecerei. Quando se cansava de mim, após longas horas, deixava-me em sua cabeceira, tudo bem, podia vê-la dormir, linda.
A semana passou como um relâmpago, rápida e brilhante. Já me sentia em casa, e enquanto passeava por minhas folhas, eu delirante gritava: “leia-me, leia-me”, suas pupilas corriam minhas palavras, me enxergando por completo. Não deixou para trás sequer um espaço em branco.
A leitura me conheceu, cada vírgula, ponto, e até meus pequenos erros de impressão.
Não citarei todos mínimos detalhes que passamos, creio assim já estar suficiente.
Como nada dura para sempre, estou de volta à minha prateleira, mas não sou nem sombra daquele antigo eu, como disse de início, hoje sou um livro por completo.
Provavelmente não a verei novamente, mas tudo bem, vivemos sob essa condição. Ela estará sempre nas páginas de minha memória, e sei que ficarei na dela.
Não sinto mais inveja de meus colegas e nem reclamo de minha sina, na verdade, que venham as traças, estou pronto, não preciso de mais nada, e aqueles olhos (azuis) sempre serão meus...