ARGUMENTO

Autor: Maurício Barros



Escrevo porque sou vivo.
Se morto fosse,
não escreveria (creio).

Escrevo porque a vida é frágil
e rouca,
e palavras saltam de minha boca
mudas, em maneiras de tinta caligráfica.

Escrevo porque vejo versos
no sol (esses sempre me cegam)
vejo letras nos rios
vejo poesias no amor
- seja ele real ou imaginário -

Escrevo porque não me contento
com tudo
não me contento com nada.

Escrevo porque amo
e amo escrever por isso.





SAMBA TRISTE

Autora: Fernanda Flores



A musica começa leve,
tal algo que se inicia.
Primeiro o cavaco, se
apresenta,

depois a cuíca doce
por pura piedade, chora
só então o pandeiro
como

quem nada quer,
tocando sem pressa ou
ambição. Tamborim, violão
e a flauta,

culta, compõem
a melodia de desamor,
triste como só um samba
poderia.

Triste como a moça
que dança no salão vazio,
com lágrima e graça
nos olhos.

Sambaria sem parar.
Sambaria sem parar,
apenas para esconder
a tristeza.

Com um áureo sorriso
- sua maquiagem - que até o
amanhecer já estaria
borrada.





Sobre a autora:
Sobre Fernanda Flores

Pétala estelar

Autor: Caetano Soares



Havia na gota de orvalho
da pétala de flor,
o reflexo da lua
e todas as estrelas
do céu.

Como - pergunto -

caberia em tão pequenina gota
supra-dimensões da luz
e galáxias intra-espaciais
e meus dois olhos,
puros e certos...

era gota
lua
flor
estrela
galáxia
e olhar.

(pétala estelar
flor lunar
orvalho do olhar
de uma gota de céu.)





Sobre o autor:
Sobre Caetano Soares



Autor: Caetano Soares



          O coração de um poeta
          é animal selvagem
correndo em fúria
          pela borda da palavra;
          é partícula animalesca de ar
no olho do furacão.
          Entidade dual:
          som e conceito,
a poesia é angustia
          no peito...
          e o coração (do poeta)
é angustia poética,
          taquicardia semântica,
          o caminho para o cume
incontrolável.





Sobre o autor:
Sobre Caetano Soares
Autor: Caetano Soares



Senhor motorista
pare à padaria!
Quero comprar um sonho
          minha alma tem fome.

O dorme-acorda me incomoda
quero cantar com sapos
- conheci um sapo com voz de burro -
era animal estranho
bicho tenor e lamacento.

Senhor seu motorista, por favor
pare à padaria!
Quero comprar um sonho.
Desinventar o pensar
despassarar as árvores
desarborizar os pássaros
despreocupar meus passos
desajustar o relógio
desconjugar os verbos

(des
cas
ca
tear

as pedras

das
cas
ca
tas.)

descobrir o ínfimo
rebolar das formigas
de bundas arrebitadas.
Pastar em gramas oníricas.
Borboletas cor de céu.
Pé de mamão.
Pé de valsa.
Pé-de-moleque.
          Pé com chulé.
Bicho de pé.

Seu motorista, por favor...
apenas um sonho doce,
a sabedoria
de se dessaber,
o plenilúnio no orvalho
transmijado do céu.

(quero comprar um sonho)





Sobre o autor:
Sobre Caetano Soares
Autor: Gerônimo Escobar



Frustrações se acumulam
uma após a outra
somam-se,
a cristalização nos olhos
torna pedra
a retina opaca
sem brilho.

O cancro berçário de monstros esta posto,
homem parasita telúrico
putrescível carne humana
vê o mal ubíquo
não se importa com mais nada,
aguarda amargo
a serena paz do húmus
escarro de estames,
ó banquete de vermes!





Sobre o autor:
Sobre Gerônimo Escobar
Autor: Caetano Soares



Pia pia passarinho
          pia pia bem.
Me leve ao seu ninho
          quero piar também.

Pia que a noite é curta,
          como o vento irá passar
pia lento passarinho
          pia só por piar.

Quantos dias a piar
          teremos que enfrentar?
Piemos todos de vez
          piemos piu piu sem parar.

Pia pia passarinho
          pia mas pia baixinho,
já chegamos ao seu ninho
          pia só mais um pouquinho...





Sobre o autor:
Sobre Caetano Soares

SILOGISMO

Autor: Caetano Soares



(I) O amor é um extremo.
(II) Todos os extremos são um equívoco.
(III) Logo, ... , deixa pra lá...





Sobre o autor:
Sobre Caetano Soares
Autor: Gerônimo Escobar



O som longínquo de Capiba
é um sopro de esperança
no peito da criança
que dança sob o sol.

As cores alegres da fantasia
ofuscam os tons opacos da realidade.
Mesas na calçada, cachaça nos copos
suor nas mangas da camisa,
lotações que fazem jus ao nome
desembarcam corpos na labuta diária,
a praça esquecida, em cacos,
lar de lixo e ratos.

Capiba não para, se amplifica
a criança sorri, autenticamente ao impossível
ensaia uns passos, uma parada, mais nada,
pele escura do sol, grossos pés descalços.

Quanto tempo passou?

Mas Capiba parou...
A fantasia morre ao silenciar
resta o medo ao redor
e a praça, seu lar.

(era apenas um dia qualquer)





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