o cigarro ao cinzeiro
queimava
pouco a pouco
céu amarelo cinzento

fumaça dançando
em ritmo solene

de tempo em tempo,
um trago desferido

tudo era silêncio,
ouvia a chuva
o grilo
a rã

ao fundo motores
com pessoas apressadas

a cinza jazia
em suave compasso
nem mesmo o vento ousava intrometer-se

uma árvore atônita assistia à cena
balançou sua copa em sinal de reprovação
- O que sabes? tola palmeira plantada à minha porta.
nada respondeu.

a árvore entendia melhor as coisas

Na verdade,


não sou verdade absoluta
sou verdade de curto alcance.

Viajando entre meus sucessivos modos de ser,
 não irei a lugar algum além de mim mesmo.

Ao descer minha rua vi uma senhora sentada ao ponto.
Enquanto todos iam e vinham
a senhora permanecia ali.
Sem razão social de ser era ela.
Esperava um ônibus que jamais chegaria.

- Extra, extra: A estética venceu a ética
prefiro assistir árvores.

O passado se modifica,
as vezes se apaga
ao bel-prazer da memória.

Meu espelho, só reflete o que não é
qualquer parede sustenta o símbolo de correntes.
Na verdade, as construções são os piores vícios.

Luz

Imagine uma onda
Uma onda global
Deixar de uso os olhos
Sentir com coração

Calmaria, apenas calmaria

Bem, só me resta sorrir ao ver o sol nascer...      






águo a planta
bebo a água
águo a flor
bebo a água
águo a árvore
bebo a água

apenas amor apreciativo.






Estrada




A cada quilômetro
me amplio e me espalho.
Pela janela vejo:
Pessoas e formigas.

Durante o trajeto,
curvas inesperadas
Possibilidades.

A vida é uma estrada
(onde ouvi isso?)

Para trás,
viúvo de uma lembrança
(já esquecida)

Hoje,
casado com um sonho
(ainda não sonhado)

Amanhã,
pai de uma fantasia
(real)

Quisera idéias aladas
 Quisera um coração acrobata
Quisera apenas eu, você e o mundo

Mas não...
não, não, não
Sou lambuzado em realidade.

Asfalto e olhar distante
senhora acolhedora
com uma ou duas paixões no peito.

Lembro-me de um momento qualquer
Cotidiano.
Tentando inventar sentido
aonde não existe.

Só que daqui,
É a vida quem me vê passar.
Excelente ponto de vista...

De parada em parada
Volto quando possível
só não se preocupem,
mandarei um postal!

Tchau






Um lugar infinitamente pequeno, ainda assim, tudo o que existia, existia ali (simultaneamente).

Seria possível?


Me vi uma sombra, confortável e refrescante, mas escuro e um tanto sem vida. Bem ao centro da tempestade, uma agitação que vinha de sonhos fantasiosos, desses que fazem mexer as pálpebras.

Mas acordei!

Era uma tempestade...
Dentro de meu corpo, silêncio! O meu peito desperto, esse sim, verdadeiro espaço ínfimo que tudo contém.

A cachaça e o coronel




BRINCANDO DE CORDEL:


Na antiga Casa Grande
Com paredes a rachar
A família bem tristonha
O corpo estava a zelar
Um viúvo triste olhava
Suas filhas a chorar

No funeral do lugar
Como todos iam seguir
Bem de longe é que a família
Ficava a assistir
Pois o viúvo e as filhas
Não podiam estar ali

A bela que morria
Era única professora
E tratava o vilarejo
De uma forma acolhedora
Ia fazer é falta
Dentro de cada pessoa

Vou deixar a Casa Grande
Pra poder continuar
Nos mudamos pra província
Pra falar de outro lugar
Mais pra frente é que a história,
Vai poder se encontrar

João Batista de Albuquerque
Comerciante de nascença 
Era justo e muito honesto
Essa era sua crença
E todos sentiam isso
Quando estavam em sua presença

Acontece que ali
Como em toda região
Havia um coronel
Bem metido a valentão
Era fácil para ele
Mandava como patrão!

Produzia em suas terras
Uma forte aguardente
A ganância que por dentro
Queimava impaciente
Queria era acabar
Com tudo que é concorrente

Como além de Produtor
Também era Deputado
Por meio de uma lei
Um plano havia bolado
Pois aquele coronel
Tinha amigos no senado

Tudo que era engenho
Como a nova lei dizia
Precisava de alvará
Mas ninguém o possuía
A não ser o coronel,
Que depressa enriquecia

Mas Batista de Albuquerque
Como bom conhecedor
Sabia que sua cachaça
Não tinha melhor sabor
E queria era comprar
Do antigo produtor

Só que esse tinha falido
Sem poder continuar
Vendeu tudo o que tinha
Foi morar noutro lugar
E essa cachaça ruim...
Bem difícil de tragar

Foi quando lhe apareceu
Aquele homem a cavalo
Que num pulo só desceu
Fazendo no chão um estalo
Também era produtor
De bebida, porco e galo

Seus animais eram bons
Como viu João Albuquerque
A cachaça era a melhor
Sorria como moleque
Pois sabia que essa noite
Teria um belo pileque

-Sabes que é ilegal?
Confirmou o fazendeiro
E dizia que também
Era um grande cachaceiro
E vendia pra ajudar
Não era só por dinheiro

Muito honesto sempre foi
O grande João Batista
Nunca quebrou uma lei
Essa era sua conquista
Mas essa ia acabar,
Com o pequeno ruralista

Firmaram então um acordo
Toda terça aparecia
O homem com seu cavalo
E sua cachaça vendia
Os clientes de Batista
Davam pulos de alegria

Numa tarde então surgiu
Uma casada senhora
Reconheceu uma amiga
Desde tempos de outrora
Ficaram a papear
A moça perdeu a hora

Mas antes de ir embora
A moça virou e disse:
-Casei com um viúvo
Venha e nos visite!
Vocês dois vão se gostar
Por favor, nos felicite

Combinaram oito horas
Três dias a partir daí
Chegou cedo ao local
Pé de amora, manga e caqui
Numa velha Casa Grande
Estamos de novo aqui

O viúvo de outros tempos
Havia se casado
Com uma bela jovem moça
Que seu peito tinha pescado
Mas por conta de uma lei
Criminoso havia virado

A cachaça que fazia
Era muito apreciada
Por não ter o alvará
Vendia só na calada
Se não fosse desse jeito
Sua renda era acabada

Batista sorria muito,
Que feliz casualidade
O viúvo era o fazendeiro
Uma real felicidade
Com sincera saudação
Confirmava a amizade

Na ceia foi que ele viu
Suas quatro filhas entrar
A mais velha era Helena
Seu peito foi a pulsar
Com a família reunida
Sentaram para o jantar

O seu rosto era corado
Batista não disfarçava
Não sabia bem porque,
Era ela sua amada
E ela também sentia
Desde a primeira olhada

O casório foi arranjado
Agosto era o mês
E Batista todo dia
Brindava com algum freguês
A moça tarde acordada
Sonhava em ter bebês

Acontece que o esquema
Por mais que fosse esperto
Caiu em maus ouvidos
Batista foi descoberto
Sua cachaça confiscada
E o caixa estava aberto

Dentro tinha um bilhete
Assinado o Coronel:
-Esse é só um aviso
Vou cumprir o meu papel
Quem não vende minha cachaça
Vai dormir lá no quartel!

O fazendeiro em pranto
Não sabia o que fazer
Sem vender sua bebida
Não podia nem comer
Com ainda quatro filhas
-Como vou sobreviver?

Mas Batista ergueu o peito
Pra Helena impressionar
Disse: -Não se preocupe!
Que um plano vou bolar 
E naquela mesma noite
Já se pôs a trabalhar

Pegou quatro galões
Da mais fina cachaça
No engenho do coronel
Os deixou ali de graça
E saiu para esperar
Bebendo no bar da praça

Quatro horas depois
No calar da madrugada
Voltou para o engenho
Ali teve uma cachaçada
O coronel tropeçante,
Dava uma grande golada

Tudo que era homem
Que trabalhava ali,
Dizia: -Que benção!
Hoje dá pra divertir,
Pois essa cachaça boa
É fácil de digerir

Tavam todos a dormir
E o engenho escureceu
João Batista entrou em cena
E um fósforo acendeu
Botou fogo no engenho
Olhou pro lado e correu

E mesmo João Batista
Que era tão correto
Agiu contrário a lei
Pois sabia que era certo
Mas muito o que temia
É que fosse descoberto

Só que o plano era perfeito
Ninguém sabia de nada
Cheirando muito a cachaça
E com a cara amassada
Os homens se olhavam
Com feição envergonhada

E agora sem existir
Engenho com alvará
O senador de Recife
Tomando um doce chá
Mudava de novo a lei
Sem muito blábláblá

Tudo que era produtor
Tava cedo no batente
Pois agora produziam
Como era antigamente
Sem precisar se esconder
Vendia bem legalmente

Nosso amigo João Batista
Em agosto se casou
Com a filha do viúvo
Por a quem se apaixonou
E o coronel falido
Fechou a porta e chorou

Agora sem produzir
Seu dinheiro tinha acabado
Perdeu também seu posto
De um nobre deputado
E sem dinheiro e poder...
Sem amigos no senado

E qualquer semelhança
Que possa ser encontrada
Entre a vida real
E a história aqui contada
É um encontro casual
Pois essa foi inventada.


Leia-me


Hoje sou um livro por completo. Mas nem sempre foi assim, há algumas semanas ainda me escondia em minha vergonha. Saí fresco e orgulhoso da editora, me enviaram diretamente para cá, biblioteca imponente, satisfação de qualquer livro.
Os anos passaram, minhas páginas começaram a amarelar, mas nunca, simplesmente nunca haviam me lido. Ouvi milhares de histórias de meus vizinhos, que inveja que tinha, todos os contos a respeito de lugares e olhos que os leram. Alguns mais experientes tinham uma vida ativa, paravam na prateleira apenas para um ou dois dias de descanso.
Entretanto quanto mais ouvia essas narrativas, mais me escondia em meu canto, embaraçado de dizer que nunca havia sido lido. Mexiam-me apenas para tirar o pó que a falta de uso gerava, mas também tinha algo a dizer.

Então, quando já aceitado minha condição, ela apareceu. Seus pés adentraram o corredor, todos os livros ergueram o peito para impressionar, os de capa dura se orgulhavam de sua aparência. Eu como de costume, fiquei quieto, era doloroso ver meus colegas indo e vindo.
Ao tempo que estava de olhos fechados, lamentando minha sina, senti uma mão quente e leve. Despertei assustado, sem entender. Mas sim, havia sido escolhido. Incapaz de acreditar, em pouco não mais estava na biblioteca.

Enquanto me carregava pela cidade, assumo que estava nervoso, apesar de minha aparência de idade, com páginas amareladas, era essa minha primeira vez.
Entramos os dois em sua casa, me deixou à prateleira e sumiu pelo corredor. Mirei ao redor, coração batendo acelerado, tinha medo de fazer algo errado, de estragar tudo.
Naquela noite, me levou ao seu quarto já com roupas de dormir, fomos para a cama. Bruscamente me abriu, pude ver pela primeira vez seus belos olhos azuis. Confesso estar um tanto quanto acanhado enquanto lia minhas primeiras sentenças, depois me deixei levar.
Encarei-os frente a frente, e também ela, via-me em cada acento, virando minhas páginas compulsivamente. Que noite meus amigos!
No dia seguinte estava mais à vontade, entrei por completo em seu mistério, jamais esquecerei. Quando se cansava de mim, após longas horas, deixava-me em sua cabeceira, tudo bem, podia vê-la dormir, linda.
A semana passou como um relâmpago, rápida e brilhante. Já me sentia em casa, e enquanto passeava por minhas folhas, eu delirante gritava: “leia-me, leia-me”, suas pupilas corriam minhas palavras, me enxergando por completo. Não deixou para trás sequer um espaço em branco.
A leitura me conheceu, cada vírgula, ponto, e até meus pequenos erros de impressão.
Não citarei todos mínimos detalhes que passamos, creio assim já estar suficiente.

Como nada dura para sempre, estou de volta à minha prateleira, mas não sou nem sombra daquele antigo eu, como disse de início, hoje sou um livro por completo.
Provavelmente não a verei novamente, mas tudo bem, vivemos sob essa condição. Ela estará sempre nas páginas de minha memória, e sei que ficarei na dela.
Não sinto mais inveja de meus colegas e nem reclamo de minha sina, na verdade, que venham as traças, estou pronto, não preciso de mais nada, e aqueles olhos (azuis) sempre serão meus...

Impermanência é lei



A água corre o rio, enfrentando pedras e corredeiras, cascatas e vales tortuosos, alcança seu objetivo quando se vê em mar aberto. 
Sob o sol sobe aos céus e se condensa em nuvem. Essa cada vez mais densa escurece-se, e quando não se aguenta rompe ao som de trovoadas. 
A água agora flutua pelo ar em seu caminho de volta a terra, enche a jarra que molha o vaso, nutrindo a semente e dando vez para nascer uma linda flor... Amor!
Mas um bichano descuidado em sua caça ao rato, esbarra no vaso levando-o ao chão. Terra e cacos por todo lado, uma lambança.

E o que saber a respeito de gatos, ratos e vasos?

O rato escapou feliz, o gato de barriga cheia, na verdade caçava apenas para divertir-se, mas a flor, bem, essa se foi para sempre!
Não sei ao certo quem me ensinou, se foi o gato ou sua caça, a nuvem ou o mar, mas aprendi. Miro em cada flor que ainda verei, um vaso já quebrado, e qualquer minuto a seu lado é uma bênção!

Impermanência é lei, eu sei, eu sei...

(...)

Poemas valem à pena


Ei moça, abra a janela
Cá estou embaixo,
Cantando-lhe uma serenata
Samba mudo, sem notas.
(Espero que gostes)
Erro de cálculo do tempo,
Deu-se um encontro desencontrado.
(Faz sentido?)
Dois corações quebrados
Uma mesma lágrima.
Ah se tu soubesses...
(Dê tempo ao tempo, dizia meu avô)
Sei que choras em segredo,
Mas quando cansares
E sua última lágrima secar,
Abra a janela.
-Escuta os pássaros?
É a vida!
Herdeira da primavera
Novos planos e olhares.
Só espero que não me acuse,
(Por judiciário da razão)
De inventar paixões tolas.
Pois essas nunca o são
Mais vale uma alegria,
Um poema...
Depois de tudo,
Quando a luz entrar,
Então quem sabe...
Seus pulmões cheios de ar
Poderíamos dividir o calor
Somar lábios,
Multiplicar sorrisos,
Subtrair tristezas,
Poderíamos...
 Mas deixemos de matemática.
(Bem sabes que não sou pra números)
Lado a lado
Antes bem acompanhado que só
Você vai ver!
Então por último, moça
Esqueçamos as palavras
(Essas já estão gastas)
Pertencem ao passado.
A luz nos olhos fala mais,
Preocupa-se com depois
E quando acordar amanhã,
Ainda cedo,
Apenas tente se lembrar
Desse que lhe escreve,
Em sereno silêncio
Uma serenata muda.
Ei moça...
(Poemas valem à pena)



Sua rua acaba em minha janela.
Meu dia termina com seu sorriso...

A irrazão as vezes me cai bem!

Herdada boemia


A minha boemia
É fardo herdado.
Veio de concepção
Humana.

O relógio não mente (dizem)
Vivo assim,
Me alegra um sorriso
Ainda mais quando ao vento.

Num bar, ou em outro
A insônia, é o auge
De minha ignorância.
Noite lua.

Sussurros, olhares, risos,
Abraços, beijos e cigarros
Mais uma cerveja
Depois, outra.

Por vezes,
Embriagado de ar fresco
Por outras, de espírito ausente
Quando não ao fundo do último gole.

Tudo bem,
É na soma das partes que existo
E eventualmente,
Deixarei de existir.

Minha individualidade,
Única, minha,
É o que me faz igual a todos
Sem pôr nem tirar.

Mas a tevê ensina:
-Gostei de sua camisa!
Moda.
Arrumo o cabelo,
Celular, perfume,
Tênis e um adorno.
Eu pavão
Eu mercado.

Os muros ditam mensagens
As ouço por ai,
Ora aqui ora acolá
Num beco ou viela.

Encontro à noite
Regozijo à madrugada
Já perdido pela manhã.
Herdado fardo...

Sou fruto social
Sou senso comum
Sou amor volátil
Sou relação fluída

Até quando insistir?
Buscando na superfície
O que está submerso.
Tolo sou.

Vida moderna,
Ética estética
Uma cruz coletiva.

E agora, de final
Pergunto:
A loucura concreta,
Não seria uma lucidez relativa?

-Talvez...

Uma ou duas doses.
Quiçá três.
Ok, garçom!
-Me veja a saideira.