Capítulos

Autor: Maurício Barros



Capítulo I

O dia
que passa
nublado
os carros
nas ruas
as gotas
no céu
a janela
fechada
a cama
vazia
e a lua
ausente
o nascente
a imperar...


Capítulo II


A noite
que chega
e o frio
se encosta
e as luzes
acesas
ou escuras
as salas
as faíscas
das brasas
iluminam
o céu.


Capítulo III


Mas só isso
não basta
pois a vida
se passa
quer queiramos
ou não
seja em dia
ou em noite
e à nuvem
clarão
se acende
de raio
com as pipas
do céu.


Capítulo IV


O telhado
quebrado
deixa a gota
entrar
e molhar
o meu tédio
o meu livro
o meu ar
vou andar
pelas luzes
das cidades
das ruas
sem verdades
ou luas
vejo estrelas
no chão.


Capítulo V


Outra vez
a dizer
que um rio
que deságua
teve antes
o nascer
o correr
pelas pedras
e as quedas
e tal
e chegar
para o mar
e abraçar
e chorar
e unir
ser um só
e subir
e voltar
sem pensar
ou querer
é fluir
o viver.

O bicho



Sou qualquer coisa bicho Homem em queda estelar
e caio por eras e eras sem história
formo paisagens galácticas
atravesso humanidades inteiras
e ignoro qualquer força gravitacional;
sou qualquer coisa que um dia vai desabar
sem fundações, sem fundamentos
sou qualquer coisa banal, cotidiana
repetitiva, repetente
sou qualquer coisa inquieta, pedinte
de conclusões precipitadas, de sensações deslocadas
sou qualquer coisa enrolada em lençol escuro
um trapo de animal humano
sou qualquer coisa que corre em corredeira
ou em rua que passa ao meu peito mas não sei onde termina
sou qualquer coisa com alma
embora não saiba ao certo o que isso signifique
sou qualquer coisa bicho com outros bichos quaisquer
na Terra
sou qualquer coisa escura no sol
o poente do poente
sou qualquer coisa transitória em qualquer parte qualquer do tempo.

bicho-terráqueo-animal-humano